O Design é conceituado como a idealização, criação, desenvolvimento, configuração, concepção, elaboração e especificação de algo, podendo ser objetos ou produções gráficas. A Psicanálise é um campo clínico e de investigação teórica do psiquismo humano. Mas como duas áreas tão diferentes, quase opostas entre si, podem se entrelaçar?

 

Segundo Jordan (2000), os objetos podem ser entendidos como entidades vivas, ou seja, eles possuem personalidade, já que características humanas são projetadas pelas pessoas nesses objetos. Assim, em função da subjetividade, cada indivíduo pode atribuir características diferentes aos mesmos objetos e ainda assim, podemos encontrar padrões nessas características. 

 

Dentro do Design, existe uma área denominada “design emocional”, na qual, segundo Demir et al. (2009), os projetos desenvolvidos a partir dessa teoria tem o intuito de trazer à tona ou mesmo afastar determinadas emoções. No entanto, é importante destacar novamente que, apesar das semelhanças entre os indivíduos, suas características e personalidades divergentes podem levar cada sujeito a despertar emoções diferentes diante de um mesmo objeto ou produto.

 

 

O designer, ao criar algo, projeta suas próprias emoções, experiências e sentimentos em sua produção e, em função de, muitas vezes estes profissionais não serem os usuários finais de sua própria criação, podem acabar criando algo que não necessariamente tenha as mesmas características ou que pertença à realidade do usuário final do produto, potencializando assim, emoções diversificadas em função de experiências diversificadas.

 

Os processos de consciência e inconsciência são de extrema relevância para a criação de qualquer produto no design. A psicanálise apresenta, a partir de Sigmund Freud, os conceitos de Id, Ego e Superego na qual cada uma dessas instâncias é responsável por um determinado conteúdo.

 

O Id é a primeira expressão psíquica, pois tudo que é recebido psiquicamente desde o nascimento, acumula-se no Id de formas desconhecidas, ficando desorganizadas e caóticas e, dessa forma, não tendo como reconhecer as leis lógicas do pensamento. 

 

Os conteúdos são inconscientes, isto é, não chegam a consciência de forma espontânea, a não ser através de sonhos, atos falhos, sintomas, etc. Esse é o conteúdo que chamamos recalcado. Alguns conteúdos nunca se tornarão conscientes, pois a consciência não os aceita nem mesmo através das expressões citadas acima e, apesar disso, estes conteúdos, ainda assim, são completamente capazes de influenciar a vida do indivíduo com grande intensidade e com poder de ação.

 

 

O ego é a instância responsável pela realidade externa. Conforme o bebê vai descobrindo sua identidade e existência, o ego vai formando-se e construindo, juntamente ao Id e Superego, a estrutura psíquica. O ego controla os impulsos do Id, buscando soluções realistas para os problemas, reduzindo a tensão e medindo o prazer, tentando assim garantir sanidade e segurança ao sujeito. Os conteúdos inconscientes do Id não passam diretamente para a consciência, pois o Ego faz o trabalho de mediação entre as duas instâncias, modificando os conteúdos recalcados (e traumáticos) do inconsciente e passando-os à consciência de forma distorcida para que, apesar de estarem ao alcance de uma análise para resolução dos conteúdos, não fiquem à disposição de sujeitos que não têm o conhecimento adequado para interpretá-los e compreendê-los. Essa modificação de conteúdos é reproduzido por representantes metafóricos, como sonhos, atos falhos e sintomas, dentre outros.

 

O Superego por sua vez é conceituado como um depósito da moral e da conduta, ou seja, de tudo o que aprendemos quando crianças em relação ao certo e errado.

 

Todas essas instâncias juntas, formam o psiquismo e seu objetivo principal é manter o equilíbrio do indivíduo. Porém, como cada uma das instâncias tem interesses diferentes umas das outras, é provável o desenvolvimento de conflitos psíquicos. A resolução desses conflitos é justamente desempenhada pelo Ego, que tenta conciliar o Id e o Superego, trazendo assim formas para resolver os conflitos. Quando o Ego não consegue desenvolver seu papel, utiliza mecanismos de defesa para adaptar o sujeito. Alguns desses mecanismos podem ser prejudiciais, pois tomam conta da cena psíquica e trazem consequências através de patologias graves.

 

Outros mecanismos podem ser mais maduros e até mesmo benéficos como é o caso da sublimação. A sublimação é, conforme Sigmund Freud (1914-1916) um mecanismo de defesa na qual as fantasias, devaneios ou mesmo os impulsos do indivíduo são inaceitáveis socialmente e, dessa forma, transformam-se em ações comumente aceitáveis e às vezes até mesmo admiradas, resultando geralmente, após algum tempo, em uma conversão do impulso inicial. 

 

 

O Design é considerado uma dessas ações aceitáveis socialmente, bem como o próprio consumo da criação, seja objetos ou produtos gráficos, desenvolvidos pelo designer. Dessa forma, “os conteúdos sublimados ganham forma, textura, cor, cheiro, etc. e as pessoas que os escolhem [os produtos] para consumir, se identificam inconscientemente com os artefatos, pois estes expressam algo que está contido no inconsciente, pré-consciente ou consciente” (Veras, 2008, p.49). 

 

Portanto, o simbolismo do produto é de extrema importância já que o simbólico é a principal forma de comunicação do inconsciente, atuando através de associações entre as situações e experiências vividas, a subjetividade do sujeito e o próprio produto em si.

 

O profissional do Design possui uma particularidade sensacional para oferecer ao mercado: algo seu, próprio, sua criação, que, através da identificação, será compartilhado com outros indivíduos. Dessa forma, ele deve priorizar não apenas a solução de problemas ao criar um material e sim, algo que possa auxiliar o cliente a se satisfazer também no processo de criação, envolvendo-o assim na busca para a realização deste material. 

 

O processo de criação é, na verdade, uma tentativa de realização, reestruturação e busca do sujeito diante de algo que lhe falta. Através da produção e criação, o designer substitui o objeto de falta que lhe gera desejo e, consequentemente, apresenta ao mercado um objeto que desperta o desejo do consumidor, deslocando assim o desejo do objetivo perdido e que lhe causava vazio inconscientemente pelo objeto ou material criado, e ressignificando assim essa falta.

 

Um item importante no trabalho do designer é o briefing. Através dele, o profissional do design poderá entender melhor a realidade do cliente e ficará mais perto de desenvolver algo que desperte emoções positivas nesse indivíduo especificamente. 

 

Quando há a possibilidade, o briefing deve ser feito pessoalmente, através de uma conversa não formal, pois dessa forma, o designer poderá perceber questões que ficam subentendidas durante a conversa, mas que são de extrema relevância na hora de produzir o material. 

 

Por exemplo: se perguntarmos a alguém como esse indivíduo está e ele responde que está bem, mas seu tom de voz nos indica o oposto, identificamos instantaneamente que este sujeito não está bem, apenas através da comunicação com ele. Assim é também o que fica subentendido durante o briefing quando o cliente, inconscientemente, demonstra diversas informações que poderão ser utilizadas para projetar algo de forma mais fidedigna e que agrade o cliente.

 

No entanto, não é apenas o inconsciente do cliente que está em jogo, como já comentado. O inconsciente do designer também terá papel fundamental nessa produção e é importante que o profissional se deixe envolver pelo projeto. Através do brainstorming, ele poderá utilizar uma técnica psicanalítica denominada por Sigmund Freud (1923-1924) de associação livre. A associação livre nada mais é do que deixar as ideias fluírem livremente, sem interferência e sem julgamento, trazendo à consciência e utilizando até mesmo conteúdos que pareçam irrelevantes e sem importância. Se esses conteúdos vieram a mente, alguma importância eles possuem e, apesar de muitas vezes não conseguirmos identificar qual sua importância ou sua origem, seu objetivo terá sido atingido no produto final. Muitas questões conflituosas internas do sujeito são trazidas à tona no processo de criação, sem que necessariamente sejam compreendidas e interpretadas corretamente, mas sempre fornecendo um material excepcional para a produção e para o material final.

 

Os entrelaces entre o Design e a Psicanálise não param por aí. Existem também algumas teorias que apresentam a interação entre o Design e a Psicologia, como a teoria do desenvolvimento infantil de Piaget e a própria Psicologia das Cores. Mas isso é assunto para outro post. 

 

E aí, conta pra gente: você quer ver mais conteúdos que possibilitem o estudo da relação entre áreas profissionais diferentes e diversificadas? Então manda um e-mail pra gente com a sua sugestão! 

 

Deixe seu inconsciente associar livremente e trazer tópicos que estejam conectados com você emocionalmente ;)

 

Curiosidades:

  1. Apesar de a Psicanálise ser referenciada sempre como sinônimo ou mesmo ligada à Psicologia, na verdade não provém dela, já que a Psicologia deriva da área das comunicações e a Psicanálise da área médica. Para ser psicanalista, não necessariamente o profissional deve ter se graduado no curso de Psicologia. Médicos, advogados e até mesmo administradores podem fazer uma formação em Psicanálise. Isso não lhes dá o título de psicólogos, apenas de psicanalistas. O título de psicanalista NÃO é obtido através de uma graduação e sim de uma formação em escola especializada. Já o Psicólogo, para atuar, necessariamente precisa obter o grau em Psicologia, podendo optar em fazer outras formações posteriormente, inclusive a de Psicanálise, e pode atender com base nos conceitos psicanalíticos, não podendo auto denominar-se “psicanalista” e sim psicólogo ou psicoterapeuta de abordagem psicanalítica. Além da Psicanálise, existem outras linhas teóricas que possibilitam que o Psicólogo atenda baseado em outros métodos e ensinamentos, como a Teoria Cognitivo Comportamental e a Teoria Sistêmica.

 

  1. Você já deve ter ouvido alguém dizer: “Nossa, essa pessoa tem o ego ‘lá em cima’!”. Geralmente, essa expressão é sinônimo de desprezo por alguém que “se acha muito” ou que parece extremamente narcisista. No entanto, essa expressão, apesar de fazer sentido, visto que o ego é justamente aquilo que se traduz como “eu”, também pode ser o oposto, já que na teoria psicanalítica é dito que quanto “maior” o ego ou mais espesso e fundamentado, mais bem psiquicamente está o sujeito. Quando a pessoa tem um “eguinho”, ou seja, um ego muito pequeno, é quando, psiquicamente ela apresenta problemas mais substanciais e muito mais graves, podendo inclusive pender para a dominância psicótica, já que quanto “menor” o ego, mais próximo de ego nenhum o sujeito está e quando não há ego, não há estrutura psíquica devidamente formada.

 

Escrito por: Erick Palhano, designer, com colaboração de Júlia Stalliviere, psicóloga. 

 

REFERÊNCIAS:

DEMIR, E.; DESMET, P.; HEKKERT, P. 2009. Appraisal Patterns of Emotions in Human-Product Interaction. International Journal of Design, 3(2):41-51.

FREUD, S. (1914-1916). As pulsões e suas vicissitudes. In: Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud, vol. XIV. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

FREUD, S. 1924 (1923). Neurose e Psicose. Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud, vol. XIX. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

JORDAN, P. 2000. Designing pleasurable products. London, Taylor & Francis, 224 p.

VERAS, A.C.S. 2008. Design & Psicologia: aplicando conceitos de psicologia em design. Recife: Universidade Federal de Pernambuco.

PALHANO, Erick Nicolas Silveira. Designer – FSG Centro Universitário.

STALLIVIERE, Júlia. Psicóloga – FSG Centro Universitário.